
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
domingo, 14 de setembro de 2008
... assim tão Martha Medeiros!
Domingo, dia de ler jornal com calma e, como muitas vezes ocorre, ser brindada com uma comunhão de sentimentos com a Martha Medeiros.
Não sou sua fã incondicional, tanto que ser Martha Medeiros é uma brincadeira, uma expressão que eu cunhei quando a perfeição na imperfeição parece exagerada, algo parecido com o velho "c.i.g." (culta+inteligente+gostosa).
Mas, retornando ao jornal de hoje, seu texto, O sempre no nunca, inicia assim:
"Vivemos num mundo de variados prazeres mundanos, sensoriais, transcendetais, mas poucos tão valiosos quanto ler um livro bom."
Ler...
Verdadeiramente - ler, para mim, vai além do prazer: beira o vício...
Nesses dias mais leves, leio tão intensamente que apenas me faltam mais livros.
E, certamente, vou dar um jeito de conseguir esse "A elegância do Ouriço", de Muriel Barbery, que Martha comenta aqui.
Entretanto, foi o final de sua crônica que comprou minha alma hoje:
"(...) Diante da do dilacerante, o que buscar? O belo. Diante do impossível, diante de uma vida inútil, diante daquilo que não aconteceu nem acontecerá, o que nos compensará? Um único instante sublime. Em todo 'não', há um filete de 'sim'. Em toda descrença, há uma possibilidade de certeza. É o que a autora chama no livro de 'o sempre no nunca'. Basta a lembrança de um piano que tocava em determinado momento de angústia, basta um pedaço de pano colorido que se destacou na hora de reunir as roupas de um morto, basta uma frase especial de uma amiga quando a noite prometia ser um suplício, e nossa desilusão eterna se atenua. Para a maioria das pessoas, os dias correm e parece que os sonhos nunca se realizarão. Nunca. Mas em meio a esse nunca, há de ter um pedacinho afetivo de sempre. Aquela lembrança, aquela foto, aquela música, aquele instante que ficou alheio ao tempo, imortal. O sempre no nunca. Há em tudo, basta um pouco de doçura para reconhecê-lo."
... em meio a esse nunca, há de ter um pedacinho afetivo de sempre!
Como não tê-lo, me pergunto?
Todo dia encontro aquela letra tão familiar escrita num caderno, num papel perdido. Aquele garranchinho de canhoto, por mais bonitinha que sua letra fosse... às vezes consigo sorrir, às vezes dói (apenas quando a encontro planos escritos, planos que nunca foram postos em prática).
Daquelas letras vêm músicas, frases carinhosas ou críticas, cores que foram embora no vento com ela. Mas a lembrança sempre está aqui, o sempre no nunca...
E é essa lembrança que mais me cobra ir em frente e fazer tanto, tantas coisas das quais nem tenho coragem de pensar maior parte do tempo. Assim como sei que já teria lhe tirado a paciência há muito tempo e que algumas de minhas escolhas seriam severamente dissecadas em busca de covardias arraigadas.
Existem sonhos que jamais serão realizados, mas às vezes existe também a realização deles em coisas tão pequenininhas e insignificantes que deixamos passar despercebidas.
Talvez um nunca no sempre, algo inesperado naquilo que conhecemos de cabo a rabo. Algo que nos guia inconscientemente, que nos ajuda a escolher e realizar no próprio irrealizado.
Certamente, seríamos mais felizes se o víssemos com mais freqüência!
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Ainda Quintana
Sem Título - Alice Soares
Algum dia na vida, todos já sentimos:
rolar por dentro pequenos pedacinhos...
aquele cristal cordial totalmente estraçalhado.
Depois da primeira lascada, a antiga intregridade
nunca mais volta e, aparentemente, essa é que dói mais.
Ficamos tão impressionados com essa dor
que tudo a nossa volta beira à insignificância.
Até o dia que finalmente ele chega aos pedacinhos...
Aí a dor começa a parecer piada!
E com a coragem renovada,
aquela de quem já pode peder mais nada,
seguimos em frente prontos pra mais uma indiada:
amar de novo, amar sempre e ainda agradecer por isso!
A RUA DOS CATAVENTOS
Mario Quintana
Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.
Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror!
Voejai!Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!
Apenas mais...
Porto Alegre - 2004 Foto : Igor Sperotto
I
Mario Quintana - A Rua dos Cataventos
Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:Verde!...
E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...
Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...
Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!
Mario Quintana - A Rua dos Cataventos
Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:Verde!...
E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...
Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...
Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!
Mais um do Quintana...
O MAPA
Mario Quintana - Apontamentos de História Sobrenatural
Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
(É nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...
Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso...
Mario Quintana - Apontamentos de História Sobrenatural
Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
(É nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...
Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso...
Mais um do Mário...
OS POEMAS
Mario Quintana - Esconderijos do Tempo
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
Mario Quintana - Esconderijos do Tempo
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Do Contra...

Mulheres com pássaros - Milton Dacosta
POEMINHA DO CONTRA
De Mário Quintana
Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!
Assim me sinto: andando devagar, bem devagarinho... quase sendo derrubada por essa turba, que anda pra frente de olhos fixados no chão ou no relógio, mas nunca no horizonte.
Posso parecer do contra o tempo todo, posso parecer louca ou desocupada e despreocupada, mas escolho ser passarinho.
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